Este livro começou a ser concebido no domingo de 17 de abril de 2016, quando o Congresso Nacional votava o afastamento de Dilma Roussef e o então deputado Jair Bolsonaro fez um discurso que, entrelaçando passado ditatorial e presente democrático, culminava no louvor ao torturador Carlos Alberto Ustra. A partir dali, ao menos no plano simbólico, estava aberto o caminho para os tempos bolsonaristas e as múltiplas transformações que se operaram na sociedade brasileira a fim de que um passado adormecido, e nunca destruído, acordasse e voltasse à tona: o nosso autoritarismo.
Daí o sobrosso que intitula este livro. Assim como sobre os ossos das bestas se forma uma ferida (“sobreosso”) que molesta e ainda assim elas continuam trabalhando e seguindo a vida normal, assim também os brasileiros tiveram de enfrentar os anos bolsonaristas, ainda mais complicados em razão da pandemia de covid-19.
O livro tento, simultaneamente, servir de narrativa da experiência desses anos e de reflexão sobre como o autoritarismo brasileiro enraíza-se em nossa formação social repetindo-se periodicamente sob variadas e renovadas formas. O bolsonarismo – termo aqui preferido ao usitado “fascismo” e que deve ser entendido para lá do personagem que lhe empresta o nome – é uma expressão propriamente brasileira do ideal autoritário. Logo, apenas a atenção a certos detalhes particulares de nossa constituição nacional (da doutrina de segurança nacional à programada e bruta exclusão social) poderia dar conta desse fenômeno.
Os textos se distribuem em quatro seções: 1) tentamos capturar aspectos essenciais do bolsonarismo a partir do discurso de 17 abril de 2016 e sua relação com a pandemia; 2) discutimos marcos teóricos importantes para a apreensão do autoritarismo brasileiro; 3) reunimos crônicas e textos de intervenção que buscam elucidar no cotidiano a experiência da pandemia e do bolsonarismo; 4) elogiamos a contribuição teórica do SUS para a construção de uma sociedade democrática que possa enfrentar o passado e não mais repetir as próprias raízes autoritárias.
Homero Santiago nasceu em São Paulo, graduou-se em filosofia na Universidade de São Paulo, onde atualmente é professor livre-docente de História da Filosofia Moderna. Entre outras coisas, publicou: Espinosa e o cartesianismo (Humanitas, 2004), Amor e desejo (Martins Fontes, 2011), Geometria do instituído, estudo sobre a gramática hebraica espinosana (EdUECE, 2014), Entre servidão e liberdade (Politeia, 2019), O aprendizado das coisas (Edições 70, 2026).